‘Música é vida’: amigos usam praça como palco para apresentações em Presidente Venceslau; veja VÍDEOS


Música abriu caminhos e levou oportunidades para os jovens, que encontraram na arte uma ‘terapia’, que os ajudou a superar momentos difíceis. E os sonhos continuam… ‘Sem Destino’ é uma das músicas autorais dos venceslauenses
Ela emociona, alegra, conforta, arrepia, preenche a alma. Ela abre caminhos, leva oportunidades, é a razão de vida de muitas pessoas, entre elas, três moradores de Presidente Venceslau (SP), que encontraram na música uma terapia, uma profissão, uma paixão. Foi essa arte, que chama a atenção de cada um deles desde muito pequenos, que o grupo resolveu levar aos venceslauenses que passam pela Praça Nicolino Rondó, onde costumam se reunir. E o G1 foi acompanhar uma dessas reuniões musicais repletas de energia positiva.
Os amigos ainda não escolheram um nome para a banda, mas isso não os impede de produzir, tocar, cantar e compor as próprias canções (veja os vídeos nesta reportagem). Afinal, os rapazes querem apostar na música como carreira e buscam meios para realizar esse sonho.
‘Flores Secas’ é uma das músicas autorais dos venceslauenses
Conheça um pouco da história dos rapazes – em ordem alfabética – Gilberto, Luan e Renan:
Gilberto André Rodrigues Júnior se reúne com amigos para ‘fazer um som’
Arquivo pessoal/Videografismo TV Fronteira
Nascido e criado em Presidente Venceslau, Gilberto André Rodrigues Júnior, de 29 anos, compõe o grupo. “Giba” trabalha como auxiliar de triagem no Pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia. Ele contou ao G1 que a música sempre esteve presente em sua vida, já que tem lembranças de, desde pequeno, escutar no rádio canções que a mãe ouvia diariamente e que até hoje lhe são referências.
Aos oito anos, Giba se interessou pelo violão. Ele ganhou um curso em um conservatório, onde fez duas aulas, pois o jovem pegou gosto por outro instrumento… Então, trocou as cordas pelo teclado.
Foram cerca de três anos de aprendizado. “Acabei que não estava gostando muito do progresso e desisti. Fiquei um bom tempo sem tocar, sem pegar nenhum instrumento”, comentou.
Entretanto, o rapaz relatou que sua história na música começou como fã, quando tinha entre 13 e 14 anos, e um amigo lhe apresentou a banda estadunidense Guns N’ Roses.
“Certa vez, ao assistir a um de seus shows em vídeo, fiquei impressionado com o guitarrista da banda, o Slash, com o que ele fazia no palco. A partir daquele momento, eu tive certeza de que era aquilo que eu queria, que eu faria aquilo que eu estava vendo naquele vídeo”, recordou.
Foi nessa época que Giba “quis realmente aprender música de verdade” e começou a pedir ao pai um violão.
Uns dois anos depois, o então adolescente ganhou o primeiro violão e aprendeu a tocá-lo sozinho, fazendo pesquisas na internet e em livros. Depois, seguiu também para outros instrumentos, como contrabaixo e guitarra, e começou a carreira de músico e produtor.
Giba não chegou a trabalhar com música como os colegas, até teve oportunidades, mas nada “muito profissional”. Ele tocava mais em festas familiares, como casamentos e aniversários.
“A música pra mim tem uma importância gigante, porque, por conta da minha deficiência, eu tive de passar por muitos procedimentos cirúrgicos, muitas dificuldades de limitações que tenho e através da música eu consegui sair de certas situações psicológicas que não estavam muito legais na época”, detalhou.
Giba acrescentou que “por ser cadeirante muitas portas acabam se fechando, seja naturalmente ou por conta do preconceito, mas a música não tem preconceito, ela pode ser feita por todos e para todos”.
Gilberto tem mielomeningocele, uma má formação congênita que o impede de andar. No caso do venceslauense, atingiu a penúltima vértebra e afetou os movimentos dos joelhos para baixo. “Costumo falar que é defeito de fabricação”, brincou.
Agora, com o grupo reunido, o rapaz ainda enfatizou as oportunidades que tem tido de conhecer lugares e pessoas novas, o que, sem a música, não conseguiria, segundo ele.
Ainda ao G1, Giba contou que já teve projetos paralelos e possui boas expectativas com o trio formado neste ano. “Com esse projeto, estou sentindo que vamos conseguir chegar lá, levar a sério, andar por aí e mostrar nossa música, nosso trabalho, viver disso, incentivar outras pessoas, servir de referência”, projetou.
Neste trabalho, os rapazes têm apostado em músicas autorais. Há duas canções prontas e três em produção.
Giba comentou que os amigos têm um processo “peculiar”. “Geralmente pego o violão, vou batendo alguns acordes e ele [Luan], do nada, começa a cantar por cima uma letra. Disso a gente pega uma base, grava essa base, pega a letra, vai mexendo na letra, muda algum acorde, vai mexendo na estrutura”, explicou ao G1.
As composições normalmente têm como “inspiração” fatos da realidade de cada um.
“A música me traz a liberdade que a deficiência por vezes me negou, me permitindo chegar a lugares que sem ela nunca saberia que poderia chegar, me ajudou a conhecer lugares e pessoas especiais em minha vida. A música me torna quem sou”, destacou.
Luan Kauê Silva Pereira se reúne com amigos para ‘fazer um som’
Arquivo pessoal/Videografismo TV Fronteira
Outro integrante do grupo é Luan Kauê Silva Pereira, de 28 anos. Ele nasceu em Presidente Epitácio (SP), já morou em Piquerobi (SP) e, desde o início da adolescência, reside em Presidente Venceslau, onde trabalha como auxiliar de Departamento Pessoal na Santa Casa de Misericórdia.
Sua história com a música começou ainda no berço, já que o avô era do samba raiz e um tio sempre que o levava para sair colocava no rádio os mestres Almir Guineto e Jorge Aragão.
Contudo, a paixão pela música surgiu mesmo quando um vizinho apresentou o rock a Luan. “A gente jogava bola na frente da casa dele e ele sempre estava ouvindo rock. Foi daí que a gente ficou bem amigo e ele me deu três discos de rock: ‘Against’, do Sepultura, ‘Brave New World’, do Iron Maiden, e o ‘Vulgar Display Of Power’, do Pantera”, relatou.
Mas Luan começou a “levar o canto a sério” quando tinha aproximadamente 16 anos, junto a colegas de escola. “Sempre achei que cantava mal e só cantava no banheiro. Ainda bem que eu saí do banheiro”, disse ao G1, aos risos.
Luan recordou que gostava de cantar desde menino, mas sempre foi tímido. Ainda assim, participou de uma banda gospel de rock: seu primeiro grupo. “Mas eu era o único ‘ovelha negra’, eu não ia na igreja, aí eu saí”, contou.
Então, veio a segunda banda, “que fluiu”, e tocou por bastante tempo, em vários locais. O grupo tocava hardcore melódico e covers de bandas como Raimundos e Charlie Brown Junior.
Com o passar do tempo, os integrantes foram seguindo outros caminhos, como ir à faculdade, e a banda se desfez. Luan parou, só cantava em rodinhas de amigos e não pretendia mais levar a música a sério.
Mas neste ano as coisas mudaram. “Agora, é a primeira vez depois de muito tempo que resolvi levar a sério, mas por incentivo dos meninos, pois eu estava bem desanimado. Aí falei: ‘Vamos, não tenho nada a perder’, aí a gente começou a se reunir, fazer um som, e estamos até compondo. Fluiu”, afirmou ao G1.
As músicas compostas e já prontas pelo grupo são “Sem Destino” e “Flores Secas”.
Voltar ao mundo musical foi “muito importante” para Luan, assim como a parceria com os amigos, já que o rapaz passava por uma fase difícil após o término de um relacionamento de oito anos.
“O Giba, os meninos, me acolheram e foi aí que comecei a levar mais a sério, comecei a sair, distrair a cabeça. A gente começou a tocar e falei: ‘Já que está fluindo e é uma coisa que a gente ama, que música pra mim é minha vida, por mim eu viveria de música sempre’ e graças aos meninos estou junto com eles. Foi muito bom pra mim, foi uma terapia. Me tirou da rotina”, ressaltou.
Luan ainda enfatizou que a música faz e sempre fará parte de sua vida. “Ela que me incentiva a viver, ela que me dá energia, ela que me ajudou em momentos difíceis da minha vida, término de relacionamento, preconceito racial; sem a música eu não sou absolutamente nada, e hoje estamos reunidos graças a ela. Gratidão eterna”, declarou.
“A música pra mim é tudo. Sem a música eu não sou nada. Pra mim a vida é uma trilha sonora, sem ela é um vazio. Não tem nem como explicar”, enfatizou.
Renan Nishimura se reúne com amigos para ‘fazer um som’
Arquivo pessoal/Videografismo TV Fronteira
O terceiro integrante é Renan Nishimura, de 29 anos. O músico e universitário, nascido em Junqueirópolis (SP), foi para Presidente Venceslau aos 16 anos. Na época, a cidade contava com uma “cena bem rock’n roll” e o jovem começou a participar de bandas.
Na época, Renan estava aprendendo a tocar contrabaixo. Segundo ele, ainda “não sabia nada”, mas se uniu a um amigo, já falecido, e saíram para tocar.
Mas a história de Renan com a música começou bem antes, ainda criança. Ele lembrou ao G1 que sempre havia iniciativas musicais em Junqueirópolis, entre elas, grupos de flauta, de que ele participava quando tinha uns sete anos de idade, e, quando foi montada uma banda marcial na cidade, “correu para participar”.
“Sempre tive um interesse, participava de coisas que estavam tendo de música. Em Junqueirópolis, eu participava de bandas marciais, eu não tinha muito acesso a cursos, nunca tive muita grana pra estar fazendo cursos, então, eu fazia muito o que aparecia de graça, mas sempre foi interesse meu”, contou ao G1.
O Projeto Guri também foi um incentivo para ele se aprofundar no mundo musical. “Tanto que foi por isso que, quando eu escolhi fazer a faculdade de música, eu tinha que escolher pra que lado eu ia, e escolhi a universidade a partir do Sisu [Sistema de Seleção Unificada]”, relatou.
“Eu atuava em informática na época, mas falei: ‘Se é pra escolher algo que eu quero fazer a vida toda, vai ser algo que eu sempre busquei sozinho e gostava muito do que eu estava fazendo’, que era música. Eu sempre estava ativo buscando e encontrando. E acho que já me encontrei”, afirmou.
Foi então que, em 2014, o rapaz se mudou para Bagé (RS) para fazer faculdade de licenciatura em música. Porém, com a quarentena, Renan voltou a Presidente Venceslau, o que se tornou uma oportunidade de se unir com os amigos para “fazer um som” enquanto cuida do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Renan ainda contou que se reunir para tocar na praça, por exemplo, tem o fator amizade como o mais forte. “A gente sempre se junta como amigos mesmo durante a noite para fazer o famoso ‘rolê’”, disse.
Como Renan sempre tem instrumentos em casa, durante esses “rolês” os rapazes resolveram levá-los para a praça para tocar juntos. “A experiência de tocar junto foi gostosa e resolvemos seguir pra frente com isso”, destacou.
Para este ano, devido às muitas limitações impostas pela pandemia da Covid-19, não há tantas expectativas por parte de Renan. “Mas, para o ano que vem, sair tocando por aí, mostrar nosso trabalho, criando músicas, que é até um gosto em comum. Acho que o que une a gente é isso, compor, criar”, entregou.
Amigos se reúnem em praça em Presidente Venceslau para tocar e cantar
Stephanie Fonseca/G1
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